Herói Brasileiro, Brasileiro

Fonte: www.Comicslivres.wordpress.com
Certo… Então você quer criar um herói de quadrinhos brasileiro, para brasileiro curtir? Quer que o seu público seja amplo e se divirta com seu herói? Quer que os leitores entendam o que seu herói representa? Quer que eles se identifiquem com ele e se lembrem dele mesmo quando não estão lendo sua história em quadrinhos?
Se a resposta for ”não” para essas perguntas, não precisa continuar lendo esse artigo. Mas se a resposta for ”sim”, é preciso se certificar de que você não vai começar da forma errada.
Não que haja “certo” e “errado” quando se trata de criar personagens. Mas alguns aspectos são cruciais para determinar a possibilidade de sucesso ou fracasso total em alcançar os objetivos citados no primeiro parágrafo.
A primeira coisa que se deve ter em mente é que estamos no Brasil, escrevendo para brasileiros. Então precisamos nos desapegar totalmente da visão estrangeira de “herói” e “super-herói” que, por tanto tempo, está impregnada no inconsciente coletivo dos autores e nerds do nosso país. Não podemos mais querer reproduzir o que absorvemos dos heróis estadunidenses, japoneses, ingleses ou de onde for. Estadunidenses escrevem histórias voltadas para estadunidenses, japoneses escrevem para japoneses, assim por diante. Mas infelizmente somos o único povo que escreve e cria coisas projetando outras culturas SEM conhecê-las devidamente.
O herói brasileiro precisa ser um HERÓI e precisa ser BRASILEIRO. Para isso não basta dar poderes a um fortão ou a uma siliconada e tascar-lhe uma bandeira do Brasil, jogando-os no meio da Amazônia para defender a selva. Isso pode parecer bem intencionado, mas não passa de panfletagem piegas e sem imaginação. Não basta trocar a roupa do seu herói gringo favorito por roupas verde-amarelo.
Se você criar um herói baseado nas características do Batman, talvez alguns leitores do Batman gostem. A maioria vai te considerar um plagiador, mas há a possibilidade de que alguns achem legal sua iniciativa. Se você criar um herói que carregue a marca do brasileiro e seu dia-a-dia, pode ser que consiga conquistar uma grande gama de leitores que se identificam com esse herói e seu universo.
Assim foi com o Homem-Aranha, que por sinal, revolucionou os quadrinhos nos EUA na época. Um nerd perdedor (a grande maioria dos leitores de quadrinhos são nerds ou esportistas-atléticos-garanhões?) que tinha uma vida normal de um nerd norte-americano, de repente se torna um herói, mas não sem trazer as devidas consequências para sua vida pessoal, familiar, amorosa e profissional.
Este sucesso fenomenal se deu porque os autores, muito sabiamente, compreenderam o público que consumia quadrinhos na época. Eles souberam lidar com os estereótipos e arquétipos tão amplamente que conquistaram leitores não só dos EUA, mas do mundo inteiro. Ainda assim, os quadrinhos eram voltada(o)s para os estadunidenses.
Minha proposta é que se encontre o herói brasileiro em meio ao seu próprio povo. Parem de se basear em seus heróis favoritos. Guardem suas HQs no armário e saia de casa. Olhe para as pessoas, para o lugar onde você vive. O herói brasileiro pode estar ao seu lado no ônibus, na sala de aula, no super-mercado. O herói brasileiro pode ser você…
Mas primeiro vamos entender o que é um herói. Ou melhor, o que faz um herói.
Um herói não é necessariamente super. O que faz dele um herói não são os super-poderes, são seus feitos, seus atos, sejam fantásticos ou apenas humanos. Sâo suas motivações de se importar com o mundo, com uma idéia ou uma pessoa a ponto de se sacrificar por aquilo que considera importante e que esteja ameaçado. Pode ser um super-poderoso impedindo uma invasão alienígena ou um homem sacrificando sua saúde no trabalho pesado para alimentar a família.
Ato heróico é sacrificar-se em prol de algo mais importante do que a si mesmo*.
Então, podemos concluir que o que faz o herói é a necessidade. Seja um perigo eminente ou uma privação. O importante aqui é estabelecer o elo, a motivação que fará uma pessoa comum se importar com a necessidade existente a ponto de se tornar o herói que vai resolver a parada.
Um herói nacional surge de uma necessidade nacional.
O Super-man foi criado em uma época em que os EUA atravessavam o pior momento de sua história. Ainda se sentia os efeitos da quebra da bolsa, a crise econômica era forte e a Segunda Guerra se aproximava inevitável. Era preciso um herói que resolvesse todas as necessidades daquele povo. Surgiu então dos céus um homem de aço, invulnerável, infalível, dando conta de todo tipo de super-vilão.
O mesmo aconteceu no Japão. Após a destruição de duas de suas principais cidades, surgiram heróis em filmes e quadrinhos capazes de derrotar qualquer ameaça, fosse tecnológica, alienígena ou biológica. O país estava seguro.
Tais acontecimentos afetaram o inconsciente coletivo desses povos.
Por isso o herói é aquilo que o povo precisa. E para se tornar herói, ele precisa se importar. O Homem-Aranha, quando recebeu os poderes, se importava apenas em realizar os próprios sonhos. Mas quando sentiu na pele a necessidade de um povo, decidiu lutar para protegê-lo.
Isso já basta se você quer um herói popular, mas descartável. Mas isso não é o suficiente para definir o herói brasileiro. Com um bom herói, a HQ nacional pode ganhar uma boa revista. Mas os quadrinhos precisam de mais do que apenas um herói para sobreviverem a longo prazo. Precisam de um mito. Assim, poderão surgir diversos heróis, em diversas formas e variações, baseados no mesmo mito.
Para se tornar um mito, o herói precisa fazer parte do inconsciente coletivo. Vamos usar como exemplo o herói japonês. A grande maioria desses heróis são baseados em conceitos milenares daquela cultura. Esses conceitos, por sua vez, são baseados em valores de honra, coragem, lealdade, fidelidade e bravura. São conceitos samurais.
O samurai é uma figura mitológica no Japão; isso não significa que esse mito nunca existiu, mas também não significa necessariamente que existiu. Nesse caso específico, os samurais existiram, mas o que realmente ficou no inconsciente coletivo foi uma imagem fantástica e idealista do samurai – a imagem que o povo japonês precisava para suprir suas necessidades.
Dessa forma, os autores têm a sua disposição um conceito, uma imagem, um mito no qual podem se basear seguramente, confiantes de que seu herói, estando dentro desse conceito, será aceito nessa cultura. E devido ao fato do mito do Samurai estar cada vez mais se tornando parte também do inconsciente coletivo do mundo ocidental, esses heróis, seus valores e feitos estão sendo aceitos deste lado do globo.
Mas e o herói brasileiro? E o mito nacional? Já o temos a nosso dispor ou precisamos construí-lo?
Alguns acreditam que os mitos estão nos folclores, outros defendem que nossos heróis estão no nosso passado, na figura de revolucionários como Tiradentes e Lampião. Eu não apóio e nem descarto essas possibilidades. Mas precisamos entender que os folclores vieram de uma cultura totalmente diversa da que vivemos hoje em dia (indígena e africana), portanto não se encaixam no mundo moderno e em suas necessidades. E os ditos heróis do passado não lutaram por algo que precisemos hoje em dia.
Então o que se pode fazer, se é que queremos usar essas duas opções, é reciclá-las de acordo com o Brasil de hoje, com o povo que está aí esperando por um herói para suas próprias necessidades. Podemos retirar os valores destas figuras que são aproveitáveis nos dias de hoje e criar um folclore moderno ou uma neorrevolução. O brasileiro nunca se importou com o passado, e não é com uma aula de História nacional em quadrinhos que ele vai passar a se importar. O que importa para o leitor é o Hoje, o Agora.
Como foi dito no artigo anterior, observe os arquétipos à sua volta, os tipos de pessoas que existem aqui. São muitos. O herói brasileiro, para ser brasileiro, precisa ser um deles. E para ter um público amplo, precisa ser um brasileiro comum. Um brasileiro que pode ser eu ou você ou seu vizinho. Precisa enxergar o Brasil tal como ele é e se importar a ponto de realizar feitos heróicos.
Se isso será feito metaforicamente ou explicitamente, é com você. É aí que entra a idéia da história, assunto que foi tratado nos artigos anteriores. Não adianta usar temas que só a você interessa ou que de acordo com sua opinião, deveria ser de interesse de todo o povo. Isso resultará em fracasso imediato. Sua idéia precisa se basear naquilo que REALMENTE interessa ao povo brasileiro. Mas não seja óbvio demais a ponto de colocar carnaval e futebol. Existem coisas que o povo se interessa e nem sabe disso. Descubra. Depois, quando tiver compreendido e criado seu universo baseado no interesse e necessidade do povo, você insere o ingrediente final: o seu toque, sua identidade, seu recado.
E não se esqueça nunca de qual é seu público. São pessoas, seres humanos, brasileiros. Entender isso na sua essência faz toda a diferença.
  • O conceito grego do “Herói” é de um ser situado entre o humano e o divino, capaz de realizar feitos épicos. No entanto, o próprio termo indica um protagonista de uma obra dramática ou de uma narrativa. No mundo moderno, o herói tem sido mostrado como uma pessoa que também possui suas falhas e fraquezas e, muitas vezes, não possui nenhuma capacidade sobre-humana, mas sim a disposição e motivação de realizar o ato heróico. Pode-se considerar, portanto, que um herói é um protagonista que supera suas condições humanas, seja física, mental ou espiritualmente, para realizar sua jornada em busca de seu objetivo final que, normalmente, será proteger aquilo que considera importante.

Comentários

Alexandre Nagado disse…
Sua postagem me fez lembrar as críticas que alguns fizeram ao Blue Fighter, meu antigo projeto. Era cópia de modelos japoneses, mas foi algo consciente. É, obviamente, um personagem nacional (pois foi criado aqui), mas não nacionalista. A história foi ambientada em um mundo alienígena pra deixar tudo neutro. Ao menos, foi essa a intenção. Pior teria sido jogar a história em Tóquio. (ou não, dependendo do grau de pesquisa e fidelidade à realidade)

Acho esse discurso bastante válido e pertinente, mas comparo muito com música.

Não existe o rock brasileiro, cantado em português? Então, dentre esses roqueiros brazucas, alguns vão falar de coisas universais (e não estão renegando serem brasileiros), enquanto outros vão falar de coisas que só fazem sentido para quem é brasileiro. São propostas diferentes. E todas válidas, desde que se saiba o que está fazendo.

No Japão, também se faz bossa-nova em japonês. E não consta que sejam criticados por não fazerem "música japonesa".

Voltando às HQs, vale lembrar que grandes faroestes foram feitos na Itália. E ainda tem o faroeste francês Tenente Blueberry.

Sou grande defensor da ideia de se fazer histórias ambientadas em nossa realidade multi-facetada, mas também acho que a arte, como a criação, são universais. Desde que feitas com embasamento e conhecimento.

Abraços!

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